BANDAS/MÚSICOS

Directório de bandas e músicos que gravaram entre 1974 e 1985 na esfera da música moderna portuguesa.

BANDAS/MÚSICOS 1974-1985

Banda do Casaco

É ouvi-los...

António Luís Cardoso [2009]



O que sempre propusemos foi o experimentalismo
Nuno Rodrigues


Ora aqui está uma das bandas mais apetecíveis e apetecidas da música portuguesa.

Em boa verdade, se existisse hoje, seria considerada, como é moda dizer-se, um projecto. Isto porque, a Banda do Casaco não foi propriamente uma... banda. Ou antes, o protótipo de uma banda comum. É comum dizer-se que se juntavam para fazer discos e a verdade não ficará longe. Deram pouquíssimos concertos em pouco mais de uma década de discos:
 
"É que ao todo, em dez anos, fizemos um espectáculo no Cine Teatro Encarnação, em Cacia, Viseu, Mafra e fechámos um espectáculo da Aula Magna onde também participaram os Trovante e a Brigada Vitor Jara"
Nuno Rodrigues ("Música & Som", nº 92, Junho de 1984)

Mas, por outro lado, os onze anos de edições (1974/1984) consubstanciaram-se em muita música: sete álbuns de originais! e, quantas chamadas bandas e/ou grupos ficam por bem menos?

Para os mais puristas, a Banda tem nos quatro primeiros álbuns o seu expoente. Há mesmo quem considere "No Jardim da Celeste" (1980) uma cedência à música moderna e com sentido mais comercial, coincidindo com o início do "boom" do rock português, "Também Eu" (1982) um disco demasiado experimental e "...com Ti Chitas" (1984) uma tentativa de regressar à música popular. Enfim, são opiniões. Pessoalmente, considero-os todos grandes álbuns, sendo experimentalistas, todos, modernos (enquanto avanço no seu tempo), idem, e, populares, ibidem. São, sobretudo, de extrema qualidade musical e com letras incisivas. Revelaram ainda grandes vocalistas: Mena Amaro, Cândida Soares (que depois adopta o apelido musical de Branca-Flor, devido ao tema "Romance de Branca Flor", do "Coisas do Arco da Velha"), Judi Brennan, Milia, Gabriela Schaaf, Né Ladeiras e Concha.

É claro que, contextualmente, o "Hoje há conqulhas, amanhã não sabemos" marca uma geração e um momento: o de um país à deriva. E, as obras de arte quando conseguem carregar essa força social e de grito, marcam, por norma, a diferença.

Não podemos ainda esquecer o cuidado que a banda dedicou à produção dos seu discos. Exemplo maior é o LP "No Jardim da Celeste"; oiça-se e compare-se com produções da época (aliás, António Pinho será responsável pela produção de singles e álbuns de ínumeros artistas, muitos do rock português, tornando-se, assim, um nome também incontornável do "boom").
Projecto essencialmente pensado e dinamizado por António Pinho (letras) e Nuno Rodrigues (música), a Banda do Casaco já não contará com o letrista de eleição nos dois derradeiros álbuns.
Em 1992, o grupo volta a gravar um tema, um extra para incluir na reedição em "cd" de "...com Ti Chitas", porventura com a sua vocalista mais carismática, Né Ladeiras. Com um nome apropriadíssimo: "Matar Saudades".

Esteve implícita a promessa de novo álbum, já na "era dos cds". O que, mau grado a expectativa, não veio a acontecer...


NOTA DE FECHO

A Banda do Casaco foi uma autêntica escola de música. Tal como os ingleses Soft Machine, abriram as portas do projecto a dezenas de músicos, que com ela colaboraram ou chegaram mesmo a integrar. De entre todos, mediaticamente destaca-se Jerry Marotta, porque, à data era também o baterista de Peter Gabriel. Mas muitos outros de tanta qualidade acompanharam António Pinho e Nuno Rodrigues nos cinco primeiros álbuns. E assim continou nos dois últimos discos, já só com Pinho ao leme.

A saber, os músicos – entre instrumentistas, vozes e coros – de todos os álbuns:

Dos Benefícios dum Vendido no Reino dos Bonifácios (1975)
António Pinho, Nuno Rodrigues, Judi Brennan, Celso de Carvalho, Helena Afonso, Carlos Zíngaro, Luís Linhares, José Campos Sousa e Nelson Portelinha.

Coisas do Arco da Velha (1976)
António Pinho, Nuno Rodrigues, Armindo Neves, Júlio Patrocínio, Daphne, Rita Rodrigues, Mike Sergeant, Carlos Zíngaro, Helena Afonso, Sérgio, Rui Reis, Helder Reis, João Oliver, António Serafim, José A. Barrocas, Raul Mendes e José Fortes.

Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos (1977)
António Pinho, Nuno Rodrigues, Mena Amaro, Tó Pinheiro da Silva, Miguel Coelho, Celso de Carvalho, Carlos Amaro, Jorge Paganini, Helena Rodrigues, Necas, Gabriela Schaaf, Rão Kyao, José Castro, Daphne, Judi Brennan e António Serafim.

Contos da Barbearia (1978)
António Pinho, Nuno Rodrigues, Mena Amaro, Celso de Carvalho, Tó Pinheiro da Silva, Armindo Neves, José Eduardo, Carlos Zíngaro, Rui Reis, Vitor Mamede, José Barrocas, Adácio Pestana, António Reis Gomes, Rita Rodrigues, Glória Luz, Guida Veloso, Cristina Janeiro, Vitor Reino, Manuel dos Santos e José Moças.

No Jardim da Celeste (1980)
Né Ladeiras, Emília, Jerry Marotta, António Pinho, António Pinheiro da Silva, Celso de Carvalho, Zé Machado e Nuno Rodrigues

Também Eu (1982)
Né Ladeiras, Jerry Marotta, Zé Nabo, Tó Pinheiro, Celso de Carvalho, Peter Harris e Nuno Rodrigues

Banda do Casaco com Ti Chitas, Pastora de Penha Garcia (1985)
Celso de Carvalho, Concha, Nuno Rodrigues, José Fortes, Ramon Galarza, Ti Chitas, Zé Nabo e (um tema na edição em cd:) Né Ladeiras

_____


A banda tem doze discos presentes no museu.
Estranha Força
X